Entrevista

Nesta seção de @lexfísica apresentaremos entrevistas com os melhores professores de física do ensino médio da cidade de Salvador.

Agora temos a honra e grata satisfação de publicar a entrevista com o prof° Rodolfo Alves de Carvalho Neto, grande figura que conheci ao ingressar no Departamento de Física do Colégio Antônio Vieira. Sem dúvida trata-se de um sujeito portador de grande humildade e equilíbrio no trato com as pessoas. Seu perfil profissional, sua ética e cultura o qualificam como uma ótima referência para os demais profissionais desta área.

Agora vamos à entrevista, realizada em julho de 2008:

Dados Pessoais:

Nome: Rodolfo Alves de Carvalho Neto

Aniversário: 20/03

Naturalidade: Salvador

Estado civil: Casado


@f: O que desenvolveu em você o gosto pela física?

R -
Antes mesmo de iniciar o estudo formal da Física, na escola, já tinha muita curiosidade para estudar esta ciência. Acredito que as leituras sobre a Astronomia que fiz na adolescência, despertaram, de alguma forma, o meu interesse pela Física.
Na condição de aluno do Ensino Médio (na época segundo grau) eu estudava nas férias, o conteúdo de Física referente à série vindoura. Resolver e elaborar questões passou a ser uma atividade muito prazerosa.

@f:Como a família reagiu ao saber do seu interesse em ser professor?

R -
Minha mãe e meu pai sempre prestigiaram, e continuam prestigiando, as coisas da vida que julgo possuírem valor!

@f:Onde leciona atualmente?

R - No Colégio Antônio Vieira (CAV), na Universidade Federal da Bahia (UFBa), e na UNIFACS.

@f:O que lhe diverte nas horas vagas?


R - Tocar violão, cantar e ou escutar músicas, especialmente a Bossa Nova e o Jazz, com a finalidade de me emocionar. Nos finais de semana gosto de almoçar ou jantar fora com a minha família e com os meus amigos. Meu pai sempre disse: meu patrimônio é a minha família. Incorporei, naturalmente, este valor.
Rodolfo e sua esposa Minna, no Cristo Redentor, RJ.
Acima: Lipe e Gabi, as "pérolas" do nosso entrevistado.

@f:Considera física uma disciplina difícil?

R -
Sim, a Física é uma disciplina muito difícil. Isso, historicamente, é compreensível. As teorias físicas, Mecânica, Termodinâmica, Eletromagnetismo, teorias da Relatividade e Mecânica Quântica, foram sendo edificadas por um complexo processo descontínuo, que, segundo Kuhn, passa pela seguinte seqüência: pré-ciência- ciência normal-crise e revolução, nova ciência normal e nova crise. O jovem que estuda Física no Ensino Médio, dispõe, em geral, de 3 anos para estudar um conhecimento “acumulado” descontinuamente ao longo de séculos. Portanto, é de esperar que o estudo contextualizado da Física (que envolve conhecimentos em Física e sobre a Física) seja demasiadamente complexo.  

@f:Tem algum sonho de consumo?

R -
Não.

@f:Quais as partes da física do nível médio considera mais complicadas ensinar?

R -
Creio que o aspecto intrinsecamente probabilístico da Mecânica Quântica, mesmo para eventos individuais, seja algo muito difícil de ensinar, não somente no Ensino Médio (em termos qualitativos), mas em qualquer nível.

@f:Quais livros que já leu recomendaria a leitura?

R -
Depende naturalmente da área de interesse de cada um. No campo da filosofia da ciência recomendaria a Lógica da Pesquisa Científica, de Popper, A estrutura da Revolução Científica de Thomas Kuhn e Contra o Método, do Paul Feyerabend.
 
@f:Como avalia, em geral, o interesse dos alunos em física?

R -
Baixo. Este resultado infelizmente tem uma dimensão mundial. Tomar o Ensino de Física como objeto de pesquisa, contudo, continua sendo um poderoso meio poderoso de transformação dessa realidade. 

@f:Você realiza atividade física ou pratica esporte com regularidade?

R -
Estou retomando minhas caminhadas. Faz bem ao corpo e a mente.

@f: Na sua opinião existe algum método para se estudar física? Caso acredite que sim comente...

R -
Não existe receituário universal. Acredito, contudo, que um estudo fecundo de Física pressupõe muita leitura teórica e muita disposição para resolver problemas, de vários livros. Deve-se tomar cuidado para não se iludir e achar que é possível aprender Física sem resolver muitos problemas. O teórico cognitivista David Ausubel argumenta que uma forma segura de verificar se o aluno aprendeu ou não significativamente um dado conceito é através de um problema novo.
Evidentemente que o hábito de resolver questões de forma não-automática só é possível quando se tem um suporte teórico adequado.

@f: Tem alguma religião?

R -
Sou católico.

@f: Em geral quais são as maiores dificuldades apresentadas pelos alunos para a aprendizagem da física?

R -
Eu penso que há uma fragmentação muito nociva ao entendimento de aspectos mais gerais da Física. Como pode, por exemplo, mesmo um aluno bem treinado em Equações Diferenciais, não ter se apropriado do aspecto preditivo da Segunda Lei de Newton?
Do mesmo modo, como pode um aluno que já resolveu inúmeros problemas de Eletromagnetismo não associar, do ponto de vista da Física Clássica, a luz com a teoria eletromagnética?
Como pode, do mesmo modo, o aluno que estudou a interferência de elétrons (ou dos fótons), nem sempre relacionar este fenômeno como um aspecto da dualidade onda-partícula?
Penso que precisamos valorizar as idéias mais gerais da Física, ao invés de cristalizarmos compartimentos aparentemente sem correlação uns com os outros.
 
@f: Como se define politicamente?

R -
Conheço e sou amigo de pessoas admiráveis tanto da chamada direita como da chamada esquerda. “Somos feitos do mesmo barro”, costuma dizer um dileto amigo e médico: Dr. Rodolfo Teixeira.
Eu, contudo, não tenho relação com partido algum.
 
@f:Cite quais são, na sua opinião, aquelas partes da física que considera menos importantes para o nível médio e que poderiam ser deixadas de lado.

R -Acredito que deveria haver uma ênfase maior na Óptica Física do que na Óptica Geométrica. Acho desnecessário, por exemplo, passar muito tempo aplicando fórmulas de desvios, quantidade de imagens, etc. Não é deixar de dar, mas rever o enfoque.
 
@f: O que mais reprova na conduta de uma pessoa?

R -
A indiferença à condição humana do próximo. O mesmo aperto de mão que se dá numa pessoa rica deve-se dar numa pessoa pobre.
 
@f: Você defende alguma linha pedagógica. Para orientar o seu trabalho em sala de aula?

R -
A Aprendizagem Significativa.

@f: O que tem a dizer aos jovens que pretendem seguir carreira na física?

R-
Tenham determinação, pois estudar não é fácil. Com o passar do tempo, contudo, esse estudo fica muito prazeroso. E esse encanto pelo querer conhecer mais não tem fim!

@f: Suas preferências:  

R
:
Cor: Azul
Música: Ela é Carioca (Tom Jobim e Vinicius de Morais).
Livro: São muitos.
Time: Já fui Bahia. Hoje só gosto de torcer pelo Brasil, em particular, na Copa do Mundo.
Ator e atriz: James Stuart e Kim Novack.
Cantor e cantora: Os Cariocas; Elis Regina.

Rodolfo ao lado do seu ídolo musical Quartera.

Quartera é ex-integrante do grupo Os Cariocas, tendo permanecido no conjunto desde a sua formação, em 1948, até início de 2000. Esteve presente no show o Encontro, em 1962, onde Os Cariocas se apresentaram ao lado de Tom Jobim, Viníciuis de Morais e João Gilberto e lançaram canções como Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinícius de Morias) e Samba do Avião (Tom Jobim)

Comida: Churrasco.
Filme: Psicose.
Programa de TV: Não assisto.

@f: O que aconteceu que o fez deixar de torcer pelo Bahia?

R -Acredito que um forte trauma advindo de uma decepção futebolística, mas não tem uma correlação direta e seria difícil quantificar a influência do episódio que relaterei a seguir no meu distanciamento do futebol. Chegava no Rio de Janeiro, por volta das 13h, num dia de Copa do Mundo de 1986 (México) quando o Brasil jogava com a França. Estava com minha mãe, meu pai e meu irmão. Zico perdeu um pênalti durante o jogo ( o que poderia acontecer com qualquer um, não estou culpando ninguém) e fomos derrotados nos pênaltis. Quase não aproveitei a minha viagem em virtude desse desagradável resultado. Achei que fosse presenciar o espetáculo de ver, no Rio de Janeiro, uma mega comemoração. Depois desta experiência esfriei um pouco com o Futebol, embora "paradoxalmente" continue torcendo fervorosamente para o Brasil, particularmente, nas Copas do Mundo. Como se vê essa "justificativa" não passa por questões específicas do Bahia.

@f: Qual episódio foi o mais cômico na sua carreira de professor, dentro ou fora da sala de aula?

Prof° Olival (esq.) e Rodolfo no lançamento do livro
"O Universo dos Quanta".
R -Aconteceu em 1996, no Curso Oficina, um ano antes de Olival Freire Júnior e eu lançarmos o livro O universo dos Quanta, editado pela FTD . Estava aguardando um telefonema do Gilberto Gil, pois precisava de uma autorização, por escrito, do seu consentimento para nós autores publicarmos, na contra capa, um trecho da Música Quanta, do referido autor. Eu tinha rebido um recado que ele ligaria para mim a qualquer momento. Estava, evidentemente, ansioso para ver se tudo daria certo. Comentei isso com os alunos. La pras tantas, o meu celular tocou, e alguém apresentou-se como Gilberto Gil. Cheguei a adiantar conversa e, como a turma ria muito, não conseguia escutar.( comecei a estranhar, contudo,
o meu celular que deveria estar desligado repentinamente aparecer ligado). Minutos depois fiquei sabendo que um aluno ligou o meu celular, quando estava de costas, viu o número e foi até o telefone público, que ficava dentro do próprio curso, e , de brincadeira, disse ser o Gilberto Gil.(na época o meu celular não tinha identificador de chamada). Ao assumirem a brincadeira foi um gargalhada generalizada, até porque na hora de atender o telefone, eu derrubei algumas cadeiras. Enfim, depois deu tudo certo!.


@f: Qual professor que teve no nível médio mais serviu como referência para sua postura profissional hoje?


R -A professora Joésia Ilka, uma expressão muito especial de competência e dignidade. ( Na realidade ela foi coordenadora pedagógica dos meus professores da época e, portanto, indiretamente minha professora). Vim conhecê-la mais profundamente enquanto profissional. Trata-se de uma expressão muito especial de competência e dignidade, amiga solidária, humana e consciente. As suas ações pedagógicas e o seu compromisso em servir ao próximo muito contribuíram para consolidar a minha formação. Impressionou-me, particularmente, a sua extraordinária capacidade de reflexão em torno da aprendizagem dos alunos. Tormamos-nos amigos para sempre e aproveitando a oportunidade, agradeço, comovido, a oportunidade de tê-la conhecido. Amizades como a de Joésia devem ser regadas diariamente.Estivemos juntos, recentemente, neste São João de 2008, em Praia do Flamengo.

FIM

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Rodolfo Alves de Carvalho Neto defendeu o mestrado em Ensino de Física em 14/12/2006, pela UFBa. A banca composta pelos professores Dr. Caio de Catilho,(UFBa), Dr Oswaldo Pessoa (USP) e Dr. Olival Freire Júnior (UFBa)- (Orientador) APROVOU, por unanimidade, a referida dissertação, cujo título é "Aspecto preditivo da Mecânica Clássica e da Mecânica Quântica, uma proposta teórico metodológica para alunos do Ensino Médio." É co-autor do livro "O universo dos Quanta" (de FreireJr e Carvalho, 1997)-Editora FTD, e tem trabalhos publicados no Brasil e um nos EUA, em Congresso Internacional, versando sobre ensino de Mecânica Quântica.